Entrevista: Paisagens Ancestrais do Juruena

Em comemoração ao Dia do Rio Juruena, antropóloga comenta sobre o significado da bacia do Juruena para os povos indígenas do noroeste de Mato Grosso.

Neste ano, povos indígenas, agricultores, pescadores e ribeirinhos decidiram comemorar o Dia do Rio Juruena com uma campanha de informação veiculada nas redes sociais da Rede Juruena Vivo. Localizado no noroeste do estado de Mato Grosso e com 1.080 km de extensão, o principal curso d’água da sub-bacia hidrográfica do Juruena, junto com seus afluentes, permitem a subsistência e a existência dos povos que vivem ali.

O Juruena também guarda paisagens ancestrais, lugares importantes para explicar a origem a humanidade de várias etnias que ainda habitam a região e que possuem papel central na forma de vida e nas crenças culturais ali presentes. É o que conta a antropóloga Juliana de Almeida, que escreveu o livro Paisagens Ancestrais do Juruena, publicado em 2019 pela Operação Amazônia Nativa. 


Salto Ytu’u. Guilherme Ruffing/OPAN.

Lívia Alcântara: Quando pensamos em uma bacia hidrográfica o que nos vem à mente é água. Mas o Juruena também guarda um enorme potencial arqueológico. Que riquezas culturais são essas? 

Juliana de Almeida: O Juruena é uma destas belezas desconhecidas do Brasil. A gente ouve falar muito do Xingu, do Tapajós. Mesmo o Juruena sendo berço do Tapajós junto com o Teles Pires, ele não está muito no imaginário de forma mais ampla, apesar de ser um rio presente no imaginário dos matogrossenses. É um local de muita história, de muita beleza. É o berço das águas e de populações indígenas. Na verdade, não existem nem pesquisas para dizer a profundidade histórica desta ocupação na região. Os dados arqueológicos são muito incipientes. 

Mas é um local de importância fundamental para diversos grupos. Os Haliti Paresi, os Enawenê Nawê… O locus de origem da humanidade para estes povos está na cabeceira do rio Juruena, que é a Ponte de Pedra, um local de extrema importância para diversas populações ali da região.

Já indo mais para o médio e o baixo juruena, vai ter outro grupos, de línguas Tupi e Macro-jê, os Rikbaktsa, que também vão ter uma relação muito profunda [com o rio]. Toda a territorialidade dessas populações é construída a partir desta socialização com o Juruena. 

O Juruena para estes povos é morada, é beleza, é local de rito de passagem, é meio de transporte, é o local onde eles se banham diariamente, onde eles pegam água para beber, é fonte de alimento. A relação dos povos do Juruena com a pesca também é muito profunda. Você tem várias camadas de entendimento. É a partir do rio que eles entendem o estar no mundo. É uma paisagem. Não dá para desvincular o estar no mundo desta paisagem. 

Lógico que cada povo vai entender da sua própria maneira este vínculo com o juruena. Vai ter povos mais pescadores, como os Enawenê Nawê, que preferencialmente se alimentam de peixes. Tem toda esta questão de deslocamento, produzir uma canoa para navegar em um rio que é extremamente encachoeirado, todo este perigo, mas também este conhecimento que eles têm, eles sabem navegar, sabem onde é possível navegar. É onde tem a morada de seres, lugares de respeito que se deve passar em silêncio, porque são outros seres que habitam, que são donos, que estão ali, que estão cuidando deles. É todo um entendimento de uma ocupação que talvez para a gente seja invisível, mas que para eles é muito concreta, que faz parte deste dia dia e dessa relação com o rio.

Lívia Alcântara: Como você fez este mapeamento para escrever o livro Paisagens Ancestrais do Juruena?

Juliana de Almeida: O primeiro desafio era justamente o recorte. Dentro desta infinidade de referências, de relações, de sentidos que os povos indígenas estabelecem com a bacia do juruena, é uma riqueza muito grande que não caberia tudo em um livro. Precisaria de muitos livros e ainda ficaria faltando. A gente fez esta escolha por trabalhar com locais que de certa maneira são muito importantes para estes povos, mas locais que sentem uma certa ameaça pelo modelo que vai se colocando na região e que é baseado em outras referências. 

A Ponte de Pedra, há 10, 20 anos anos atrás chegou a ser uma pista de motocross. Duvido que as pessoas que estavam andando de moto em cima tinham noção de que ali era o local onde a humanidade Haliti Paresi surgiu. Então este desconhecimento da importância deste local… Os Haliti Paresi, a partir de ver os riscos que estas paisagens sofrem, eles travam toda uma batalha para a proteção destes locais. 

Esta proteção ela se torna mais possível a partir do momento que a gente amplia o conhecimento, extrapolando para as populações não indígenas a importância destes locais. A gente fez este recorte da gênese humana, que é a Ponte de Pedra, um local belíssimo, que extrapola até a própria ponte em si. Lógico que a ponte é muito marcada, este armado de pedra, esculpido pela história, mas todo o espaço em torno da Ponte de Pedra, estas populações quando surgiram, qual caminho que elas traçaram, onde elas sentaram, onde elas enterraram seus primeiros mortos, onde elas buscaram alimentos…. É algo que vai extrapolando a própria ponte e permeando espaços adjacentes. 

Mais para o médio e baixo Juruena, a gente vai ter outras concepções igualmente importantes. A questão do Salto Itu’u, o Salto Grande dos Kayabi. Aí você vê uma questão bem ligada com a história, que é um pajé que faleceu nos anos 60 e que se tornou uma espécie de guardião daquela localidade. Uma localidade que já era de importância histórica, cosmológica para estes grupos. E a partir do momento que este pajé passa a viver ali permanentemente, cuidando do seu povo, ela se torna ainda mais relevante. 

Acabamos entendendo estes lugares como ritos de passagens. Muitos povos têm nas águas o lugar preferencial para fazer a passagem dos jovens para a vida adulta, se faz furação [de orelhas e narizes], tatuagem, então tem esta ligação muito forte com o rio. Os próprios Rikbaktsa… Foi a partir do encontro com os peixes, com o Juruena, com o Salto Augusto que eles conseguem reconhecimento de cantos, flautas. Os peixes proporcionam este conhecimento para eles.

Existe toda uma interação não só com os rios, mas também com os seres que ocupam as águas. E são relações bastante profundas, que vão se atualizando conforme a história avança. Não é uma coisa que está no passado, está no presente. 

Você vai ter também os Enawenê Nawê, que falam dos espaços como espaços de de cura. São espaços em que você se banha e que vc tem um tratamento especial dessa água. É como se fosse uma água benta.  

Lívia Alcântara: Você tem noção do quanto você mapeou e o quanto ainda existe para ser descoberto?

Juliana de Almeida: A gente sabe muito pouco, essa é a verdade! O livro é apenas um primeiro ensaio para reunir um pouco do que se sabe sobre essa riquezas da bacia do rio Juruena em termos culturais. Há muito o que se aprender com as populações que vivem nesta região sobre a importância, a relevância, os sentidos que esses espaços revelam, os quais muitas vezes a gente não consegue enxergar. Mas que no diálogo com estas populações, elas nos permitem abrir mais os olhos para a importância do local. 

E neste diálogo as populações indígenas deixam claro o apoio que elas esperam na proteção destes espaços. Muitas vezes a questão é colocada como um impedimento ao desenvolvimento, mas o que elas estão pedindo é que elas possam participar, que elas possam ser ouvidas e que estas outras referências de importância do local, para além do potencial hídrico, técnico, também possam ser consideradas neste diálogo sobre o uso das bacias hidrográficas. Não é uma questão de dominar o uso, de determinar este uso. É dizer que ‘existe mais coisas sobre este local e a gente gostaria de colocar na mesa para este debate’. 

Lívia Alcântara: O que poderia ser feito para a preservação destas riquezas?

Juliana de Almeida: Para além da dimensão do registro e da divulgação, o livro parte desta estratégia de divulgar e fazer conhecer, não existe uma solução única. São várias soluções e de preferência que estas soluções sejam colocadas na mesa pelas próprias populações indígenas, porque eu acho que são elas quem realmente podem direcionar a implementação destes planos. 

Vão ter várias alternativas, desde os Paresi com a proposta de etnoturismo vinculada ao aspecto cosmológico… Tem um potencial muito grande, é algo que sensibiliza, que aproxima. Ver de longe, ver uma foto, você acha bonito. Mas estar lá, colocar os pés naquelas águas, sentir aquele espaço, sabendo da importância daquilo, do quanto é sagrado. Acho que é algo que tem um potencial muito grande para aproximar, para sensibilizar. Essas iniciativas de turismo são bem interessantes. 

E a participação de indígenas na academia. A gente já tem iniciativas de estudantes indígenas fazendo pesquisa, trazendo estas referências dos seus povos para o debate da universidade. Acho que isso ajuda a sistematizar com profundidade. Principalmente quando tem a barreira linguística, a participação dos indígenas é fundamental para um entendimento menos equivocado nesta tradução de sentido que a gente faz. Não vai ter uma medida única. Lógico que vc pode ter um registro via um patrimônio cultural, um tombamento de um sítio arqueológico. Tudo isso vem reforçar, mas tem que ser algo mais amplo. 

E no geral conseguir demonstrar a importância do Juruena no cenário nacional. O Juruena é um gigante belo adormecido, é um lugar lindo, maravilhoso. Certamente é uma das paisagens mais belas que existem e de fato bastante desconhecido no cenário nacional. Talvez trazer este conhecimento mais ao público ajude a criar uma relação mais amorosa, considerando os usos, os potenciais, as demandas locais que não são só dos indígenas, são dos não indígenas também. Mas um uso cuidadoso e com o papel e a participação dos indígenas. Acho que isso é fundamental. Acho que os projetos que virão das proposições deles é os que renderão bons frutos. Ainda que a gente conheça, a gente não tem a vivência profunda do sentido do local como eles têm.

Lívia Alcântara É jornalista, socióloga.